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Nem sempre o plano é claro. Às vezes, tudo começa com inquietação. Foi essa inquietação que tirou José Carlos, conhecido como Zecka Pinheiro, de Cascavel, no Paraná, e o levou, ainda jovem, a atravessar o oceano em busca de algo que ele mesmo ainda não sabia exatamente o que era. Hoje, aos 37 anos, ele olha para trás com a certeza de que aquela decisão, tomada há cerca de 16 anos, não apenas mudou sua vida, mas definiu quem ele se tornaria.

A mudança para Portugal aconteceu nesse momento de inquietação pessoal e desejo de descobrir o mundo. A ideia inicial nem era sair do Brasil, mas a vida, como em muitas histórias de imigrantes, abriu uma possibilidade inesperada. “Eu sempre fui uma pessoa inquieta, com muita vontade de conhecer coisas novas”, relembra.

A presença de uma amiga que já vivia em Portugal foi determinante para ampliar seus horizontes. O que antes parecia distante tornou-se possível, e ele decidiu arriscar. Ao chegar, encontrou um cenário mais leve do que imaginava. O clima, a cultura e o estilo de vida facilitaram a adaptação inicial, criando uma sensação de acolhimento que nem sempre é comum em processos migratórios. Mas, como quase sempre acontece, o verdadeiro desafio não estava na chegada e sim na construção de um caminho.

A inserção no mercado de trabalho foi o primeiro grande obstáculo. As experiências iniciais trouxeram questionamentos e inseguranças, especialmente por estar longe da família e da base emocional construída no Brasil. “Começamos a questionar se fizemos a escolha certa”, conta.

Ainda assim, ele seguiu. No Brasil trabalhou em áreas ligadas ao atendimento ao público, trabalhou em lojas, clínica de estética e também atuou como auxiliar em um banco. Já em Portugal, desempenhou funções em clínica dentária, mantendo sempre como ponto comum: o contacto direto com pessoas. Mas, paralelamente, havia algo que sempre esteve presente, mesmo que de forma silenciosa: a música.

Muito antes de se tornar profissão, ela já fazia parte da sua vida de forma intensa. Era mais do que lazer, era conexão, identidade, presença. “Eu sempre fui um grande entusiasta da música… mas nunca imaginei que um dia poderia trabalhar com isso”, afirma.

O ponto de virada veio quando deixou de ocupar apenas o lugar de quem consome música e passou a enxergar a possibilidade de estar do outro lado. A cabine, que antes parecia distante, começou a se tornar um objetivo real.

As primeiras oportunidades surgiram de forma orgânica, através de conexões e do ambiente em que já estava inserido. E, quando apareceram, ele fez o que define grande parte das histórias que dão certo: agarrou sem hesitar. “Quando as oportunidades surgiram, agarrei com unhas e dentes”, diz Zecka.

A partir daí, a música deixou de ser apenas uma paixão e passou a ser caminho.

O início foi marcado pela atuação na noite, em festas e clubes, onde construiu base, experiência e presença. Com o tempo, veio a necessidade de evolução e adaptação, uma característica essencial para quem quer se manter relevante em qualquer mercado.

A transição para eventos privados e corporativos trouxe novos desafios. Públicos diferentes, expectativas distintas, dinâmicas mais exigentes. Foi preciso aprender, ajustar e expandir a forma de atuação. “Cada contexto pede uma abordagem diferente”, explica Zecka.

Essa capacidade de adaptação foi fundamental para consolidar seu espaço em um mercado competitivo e em constante mudança. Mas, entre todos os momentos da trajetória, alguns se destacam como verdadeiros marcos. Convites para grandes eventos e apresentações fora do país trouxeram não só visibilidade, mas também a confirmação de que o caminho construído fazia sentido.

Hoje, Zecka vive uma fase de estabilidade e realização profissional. Viver da música, algo que um dia parecia distante, tornou-se realidade. E essa conquista carrega um peso significativo, especialmente para quem começou sem exatamente planejar esse destino. “Conseguir viver da música é algo extremamente gratificante”, afirma.

Mais do que técnica ou repertório, o que diferencia seu trabalho é algo que não se ensina, se sente. “A energia”, resume. É essa energia que cria conexão com o público, transforma eventos em experiências e faz com que cada apresentação seja única. Porque, no final, não se trata apenas de tocar música, trata-se de criar momentos.

Hoje, com uma carreira consolidada, Zecka segue olhando para frente com a mesma inquietação que o fez sair do Brasil anos atrás. O objetivo agora não é apenas crescer, mas evoluir com consistência, explorando novas experiências e mantendo viva a essência que o trouxe até aqui.

Entre escolhas, adaptações e descobertas, sua trajetória mostra que, às vezes, o caminho não precisa estar claro desde o início. Basta reconhecer, no meio do percurso, aquilo que faz sentido e ter coragem de seguir.

Instagram: @zeckapinheiro

Por: Myllêna Sergel